Prof. Walter Lippold – História EJA/CAP/UFRGS 2009
Este documento introduz algumas ideias básicas para se iniciar uma pesquisa e desenvolvê-la dentro do campo da metodologia científica. O ser humano é um ser que pesquisa, que busca conhecimentos no mundo sócio-natural. Dizemos sócio-natural porque só conhecemos a natureza através do mundo social, ou seja, através das visões de mundo que possuímos e teorias que utilizamos para conhecer a natureza.
Quando estamos pesquisando algo, dentro da ciência dizemos que estamos pesquisando um fenômeno, pois denominamos fenômeno aquilo que se manifesta, que aparece a nossa vista de determinada formação material (da natureza) ou social. Um exemplo é o fenômeno da transformação da água de seu estado líquido para o gasoso, quando aumentamos a quantidade de calor na água ela se transforma qualitativamente ao chegar a 100 ºC (Graus Celsius), ela se torna vapor. O que vemos deste processo, o que é aparente dele, é o fenômeno.
Na sociedade podemos usar como exemplo o fenômeno do crescimento da violência urbana, ao lermos jornais, ao sermos assaltados no ônibus, estamos observando o aparente deste fenômeno social. Mas conhecer e descrever o fenômeno não basta, a ciência busca conhecer a essência do fenômeno, ou seja, aquilo que ele é realmente, pois o fenômeno/aparência esconde aspectos da essência e se não fosse assim, não precisaríamos da pesquisa cientifica para conhecer as relações ocultas de determinado fenômeno.
Toda pesquisa necessita da escolha de uma teoria e de uma metodologia para poder se realizar, a negação desta escolha já é uma escolha. No nosso caso utilizaremos a concepção dialética de pesquisa, desenvolvida pelo pensador grego Heráclito de Éfeso . Para a dialética o mundo esta em constante mudança, nada permace o mesmo por muito tempo: “não te banharás duas vezes no mesmo rio” dizia Heráclito, pois o rio já não é o mesmo e nem você é o mesmo. A mudança é absoluta, tudo esta em movimento, a natureza e a sociedade humana. Assim para esta teoria não existem verdades absolutas e eternas, as verdades são sempre temporárias e historicamente condicionadas, ou seja, cada tempo produz suas verdades.
O ser humano pesquisa para conhecer e conhece para intervir na realidade, sendo assim ao conhecermos o nosso fenômeno pesquisado pode ser que queiramos modificar alguns aspectos deste fenômeno, assim cabe ao pesquisador produzir dentro de sua pesquisa possibilidades de mudança do fenômeno: se ele pesquisa a questão do lixo, pode dar ideias acerca da reciclagem, pode produzir panfletos para conscientização das pessoas, etc.
1) Escolha e Delimitação do tema
Esta fase é bastante difícil mas extremamente necessária para a pesquisa, se o pesquisador não delimitar bem o seu fenômeno pode não conseguir acabar o trabalho dentro do tempo possível. Em primeiro lugar escolhe-se um tema que pode ser geral, posteriormente deve-se delimitar o espaço especifico onde se quer pesquisar, o seu local de trabalho, a sua rua, uma praça, uma instituição, etc. Por exemplo, aquele que escolhe o tema de pesquisa água tem em suas mãos algo muito amplo, se ele especificar que seu trabalho versará sobre o desperdício de água na sua rua, ele já possui um espaço mais focalizado e delimitado.
2) Leitura afins e observação do fenômeno:
Ao delimitar o seu fenômeno de pesquisa (o seu tema) o investigador deve procurar bibliografias, artigos, reportagens, vídeos e documentos acerca do fenômeno pesquisado. Ler o máximo possível, fazendo anotações de idéias, frases, produzindo fichas de leitura, resumos do que foi lido. Quanto à observação do fenômeno, devemos munidos de um caderno de anotações, que chamados de diário de campo, ir ao local pesquisado, anotar as características deste local, observar as pessoas, o que fazem, quem são. O olho da pesquisadora, seu ouvido, devem estar atentos, estes anotações serão fundamentais nas fases posteriores da pesquisa.
3) Formulação do problema de pesquisa, da hipótese, da justificativa e objetivos da pesquisa.
3.1 Problema de Pesquisa: deve ser a questão-guia do trabalho, por isso deve ser bem pensada. Nesta pergunta que guiará nosso trabalho a delimitação do fenômeno pesquisado deve aparecer. Exemplo: Que situações levam as pessoas da Rua X a desperdiçarem água de modo abundante?
3.2 Hipótese: é uma resposta temporária que damos ao problema de pesquisa. Ela pode ser confirmada no fim do trabalho ou pode ser descartada, assim é a ciência, não cultiva certezas absolutas e eternas.
3.3 Justificativa: qual a importância desta pesquisa? Por que fazê-la? Nesta parte você irá justificar o seu trabalho. Exemplo: “A pesquisa sobre o desperdício de água é muito importante, pois a água potável do mundo está escassa e a conscientização das pessoas e das empresas faz-se necessária neste sentido.”
3.4 Objetivos: O objetivo ou objetivos devem explicitar o que a pesquisa quer conhecer: quer conhecer a historia de algum lugar, quer compreender os fatores que levam ao desperdício de água, quer aprender sobre reciclagem de lixo de um determinado local. No nosso trabalho teremos dois objetivos: o primeiro será conhecer ou compreender os fenômeno estudado, suas relações, seu desenvolvimento, o segundo será a nossa intervenção na realidade, o que queremos mudar neste fenômeno. Exemplos: Objetivos: a) Compreender as origens e situações que levam ao desperdício de água na Rua X. b) Produzir panfletos sobre a importância do gasto consciente de água para distribuir na Rua X.
O problema de pesquisa, a hipótese, a justificativa e os objetivos formam a parte fundamental da futura introdução do trabalho.
4) Descrição do fenômeno escolhido.
Com a ajuda das anotações, fichamentos de livros e artigos e do diário de campo torna-se possível fazer a descrição do fenômeno escolhido, o que é aparente nele, aqui se inicia o esboço do que será futuramente a primeira parte do desenvolvimento do trabalho.
5) Busca das origens e desenvolvimento do fenômeno (espaço e tempo)
Mas não paramos na descrição do fenômeno em seu presente, temos que procurar saber quando surgiu, em que condições históricas, como se desenvolveu (tempo) e em que espaço ele surgiu em termo geográficos. Se falamos de reciclagem de lixo devemos procurar saber em que época ela começou a ser feita ou ser debatida e como tem se desenvolvido até o presente.
6) As relações do fenômeno com outros fenômenos sócio-naturais
O fenômeno pesquisado nunca está isolado, ele pertence a uma rede e relações com outros fenômenos e interage com eles. Para compreender um fenômeno é necessário conhecer suas relações com outros fenômenos. Um exemplo: o fenômeno aula não existe sem o fenômeno estudantes e o fenômeno professor, eles estão relacionados entre si, o espaço físico da sala de aula e os sujeitos estudantes e professores.
7) Busca das contradições que movem este fenômeno:
Que tipo de contradições existem no fenômeno, um exemplo: basta somente as pessoas se conscientizarem para reciclarem o lixo ou as empresas também devem? Contradição: consciência das pessoas X consciência empresarial. Se no caso sua pesquisa é sobre lugar, que interesses estão em conflito neste lugar, desde sua origem.
7) Coleta de dados (entrevistas )
Neste momento faz-se necessária a produção de um roteiro de entrevista. As perguntas devem ser formuladas de modo que o entrevistado não responda apenas com sim ou não. O uso do gravador é aconselhado. Após gravar a entrevista o pesquisador deve ouvir a gravação e transcrevê-la, ou seja, passá-la para o papel para posteriormente usar alguns trechos em seu trabalho.
8) Feitura do rascunho final e Revisão
Nesta fase revisamos tudo o que anotamos, nossa descrição, nossas entrevistas e leituras, e escrevemos um rascunho, um esboço do nosso trabalho, após fazer este esboço devemos revisar o texto em busca de erros, frases desconectadas do texto, assinalando com lápis tudo o que achar.
9) Crítica do (a) orientador (a) e reformulação dos aspectos criticados. Feitura do texto final.
O orientador recebe o rascunho final, revisa-o e entrega para o orientando que deve então partir para a produção do texto final que será entregue. Agora o pesquisador chegou na fase final, onde deve lapidar sua pedra preciosa, que no rascunho estava em estado bruto.
10) Intervenção na realidade:
O pesquisador em seu trabalho propôs uma intervenção na realidade, assim ele deve produzir as possibilidades de mudança que aconselhou no texto do trabalho. Exemplo: utilização de cartazes, panfletos, palestra comunitária, etc.